“Ainda dá para esperar mais um pouco.” Essa é uma frase que escuto com frequência de pacientes com catarata. Mas existe uma ideia antiga que precisa ser deixada para trás: a catarata não precisa “amadurecer” para ser operada.
Ao mesmo tempo, descobrir uma catarata não significa que seja necessário operar imediatamente.
O momento ideal da cirurgia depende de uma combinação de fatores: quanto a catarata está comprometendo a qualidade da visão, o impacto disso na rotina do paciente, a velocidade de evolução e as características específicas de cada olho.
Nas fases iniciais, quando a visão ainda é satisfatória e as atividades do dia a dia não estão prejudicadas, muitas vezes é perfeitamente possível acompanhar.
Por outro lado, também não há vantagem em esperar indefinidamente. Cataratas muito avançadas podem se tornar mais densas, exigir mais energia durante a facoemulsificação e tornar a cirurgia tecnicamente mais complexa.
Por isso, não existe uma idade, um “grau da catarata” ou um determinado número de visão que, isoladamente, defina a hora certa de operar.
Alguns sinais costumam indicar que chegou o momento de reavaliar:
- queda progressiva da visão para longe, inclusive sem óculos, especialmente quando passa a interferir em atividades como dirigir, assistir televisão ou reconhecer pessoas à distância;
- dificuldade crescente para dirigir, principalmente à noite;
- maior incômodo com faróis, halos e reflexos;
- perda de contraste ou sensação de visão embaçada;
- cores que parecem menos vivas;
- necessidade de mais iluminação para ler;
- mudanças frequentes no grau dos óculos;
- dificuldade para reconhecer rostos, ler legendas ou realizar atividades que antes eram simples.
Em muitos pacientes, chega um momento em que simplesmente trocar os óculos já não devolve a mesma qualidade de visão. Isso acontece porque o problema deixa de ser apenas o grau e passa a estar relacionado à perda de transparência do cristalino causada pela catarata.
Mais importante do que saber apenas quantas letras o paciente consegue enxergar na tabela é entender como ele está enxergando na vida real.
A cirurgia de catarata mudou muito
Hoje, a cirurgia de catarata não envolve apenas retirar o cristalino opacificado.
O planejamento começa antes da cirurgia, com exames que permitem medir detalhadamente o olho e calcular a lente intraocular que será implantada.
Com biometria de alta precisão e diferentes tecnologias de lentes intraoculares, podemos planejar também a correção de miopia, hipermetropia e astigmatismo e, em pacientes selecionados, reduzir significativamente a dependência dos óculos para diferentes distâncias.
Isso trouxe um novo componente para a cirurgia: além de recuperar a visão perdida pela catarata, passamos a discutir também qual qualidade de visão queremos proporcionar depois da cirurgia.
Existem lentes monofocais, tóricas, de foco estendido e multifocais, entre outras opções. Cada tecnologia apresenta vantagens e limitações.
Não existe, portanto, uma única lente “melhor”. Existe a lente mais adequada para cada olho e para as necessidades de cada paciente.
Essa decisão depende de fatores como a anatomia ocular, a presença de astigmatismo, as condições da córnea e da retina, as atividades profissionais, os hábitos de leitura, a direção noturna e o grau de independência dos óculos que cada pessoa deseja alcançar.
Então, quando operar?
De forma prática, o melhor momento costuma ser aquele em que a catarata começa a reduzir a visão para longe, comprometer a qualidade visual ou interferir nas atividades que são importantes para o paciente, e o benefício esperado da cirurgia passa a ser maior do que a vantagem de continuar esperando.
Essa decisão deve ser individual.
Na minha prática, considero fundamental avaliar não apenas a catarata, mas todo o sistema óptico do olho e, principalmente, compreender o que cada paciente espera da própria visão depois da cirurgia.
Uma cirurgia bem planejada começa muito antes de entrar no centro cirúrgico.
Se a catarata já está causando redução da visão para longe ou interferindo em atividades como dirigir, ler, trabalhar ou reconhecer rostos, vale fazer uma avaliação detalhada. A partir dos exames, das características de cada olho e das necessidades visuais de cada pessoa, podemos decidir com segurança se chegou — ou não — a hora de operar.

